O dia era 5 de outubro.O day after do primeiro turno das eleições brasileiras. O candidato de extrema direita venceu o primeiro round e houve uma vantagem estrondosa desse setor no Congresso e nos governos estaduais, capitaneado pelo PL, o Partido Liberal.
O clima era de desolação.Lembro como se fosse hoje que eu assistia ao Jornal Nacional alardeando o feito dos reacionários. Na entrevista o então candidato Flávio Bolsonaro cantava vitória e já anunciava a composição de seu eventual novo governo e a reforma na Constituição que colocaria em curso.
Ao longe comecei a ouvir uns gritos.A princípio julguei até ser uma manifestação de comemoração.Ledo engano. Era uma passeata que não demorei a decidir por engrossar.A manifestação de caráter espontâneo tivera início como protesto na tradicional Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, onde hoje leciono, mas de onde sou egresso dos bancos do curso de Ciências Sociais e também foi o local do meu doutorado, justamente em Ciência Política.
Não titubeei e rapidamemte percebi que ali se fazia História, com h maiúsculo.O cenário era de revolta, mas também de riso e pertencimento.Não demorei a identificar rostos conhecidos, desde a amiga de infância da afilhada, passando a avistar cada vez mais alunos meus, que gritavam ensandecidos ao identificar que o docente também se somara ao ato.
O resto o país já sabe.Aquela correnteza de milhares que cruzou as ruas na chuva foi o estopim para que centenas de atividades semelhantes fossem reproduzidas por todo o país. A Uff foi apenas o rastilho de pólvora da virada que o então presidente de esquerda Lula conseguiu impingir ao punguista às avessas herdeiro do clã miliciano.
Parafraseando a música dos Novos Baianos a juventude demonstrou que "no céu azul, azul fumaça.Uma nova raça.Saindo dos prédios para as praças".
